Olha, se há apenas um ano me dissessem que isto aconteceria, eu diria que era viagem lisérgica. Mas não é que o President Obama acaba de anunciar que os executivos dos bancos, que vierem a receber ajuda do próximo pacote do governo (que ainda está em gestação), não poderão receber bônus acima de USD 500 mil!

Estes USD 500 mil podem parecer indecentemente altos para quem não é do mercado financeiro, afinal, é muito dinheiro em qualquer país do mundo e em qualquer situação. No entanto, para executivos de bancos americanos USD 500 mil é dinheiro de gorjeta. Estamos falando de gente que ganhava múltiplos de 5 também, mas em milhões, tipo USD 5 mm, USD 10 mm…USD 50 mm, etc. – ao ano, todo ano!

Remuneração – eu defendo a tese de que a remuneração de executivos  deve respeitar a lei da oferta e da demanda, assim como ocorre com a taxa de juros, o preço da batata e do repolho, honorários de advocacia, entrada do cinema, etc. É simples: se tiver cara bom sobrando para as vagas ofertadas, o bônus pode e deve cair; e se tem mais vaga do que candidato bom, o incentivo financeiro tem de subir para que estes sejam atraídos para a vaga.

O erro – Porém, o sistema financeiro vem errando há decadas na gestão dos riscos que correm e que só aumentam a cada crise internacional. E existem dois motivos titânicos para isto:

  1. A pressão que os investidores/acionistas fazem para que os bancos lucrem sempre mais e mais e mais e mais…
  2. Os bônus que são oferecidos para que os executivos atinjam tais metas malucas. É o incentivo à irresponsabilidade!

Estaremos às portas de um novo Capitalismo Financeiro? Será este menos agressivo, menos materialista e mais fraterno? Minha aposta é que sim, até porque eu torço para que isto aconteça – e dou a minha humilde contribuição aqui e alí.

In Obama we trust!

Abraços, F.

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Amigos – os jornais, o rádio, a TV e a internet vêm falando sobre o G-20 ad nauseum. Ontem, eu mesmo postei duas vezes sobre o tema. Vamos agora ao que interessa de fato:

  1. Não espere qualquer mudança no panorama econômico, brasileiro ou mundial, por conta do G-20 de ontem, ou das reuniões que farão em março (Ministros) e abril (Chefes de Estado).
  2. O G-20, do jeito que está estruturado, é um fórum político que lança grandes idéias para debate.
  3. Sua visão irá virar algo de concreto lá para 2010. E suas decisões serão voltadas para controle do Capitalismo Financeiro e não para acelerar a economia que é o drama do momento.

Escrevo isto por desencargo de consciência. Não quero que ninguém pense coisa errada – ou exagerada – sobre o tema. E eu li em algum lugar que o Presidente Lula teria dito, em tom de comemoração, que o G-20 seria um “clube de amigos”. É, será mais ou menos isso mesmo. Cada uma…

O atual estado da crise no Brasil: a retroalimentação.

  1. Os bancos sabem que não terão linhas de crédito para atender a demanda.
  2. Os bancos sabem que a economia vai desacelerar fortemente por conta disso.
  3. Os bancos cortam ainda mais as linhas daqueles segmentos mais afetados.

Como reverter o quadro sombrio

  1. O governo agir como fez com os setores da construção, varejo e automotivo
  2. O governo escolher dez cadeias produtivas industriais e injetar recursos diretamente
  3. Quando estas “pegarem no tranco”, os bancos irão se animar e os negócios retomarão

As boas reportagens abaixo do Estadão de hoje, – uma assinada pelo Leandro Modé, outra assinada por Daniele Carvalho e Alberto Komatsu – mostram bem o cenário que nos espera. Péssimo.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081116/not_imp278426,0.php

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081116/not_imp278425,0.php

O “ativismo governamental” será fundamental para que a economia não contraia uma profunda anemia. Só que não deverá esperar que o setor em tela entre em coma de iliquidez. Tem que agir antes, antecipar-se para não alimentar rumores e tensões.

O governo precisa entender que o crédito não voltará a ser o que era antes – nem de perto! Passada a crise aguda da falta de funding nos próprios bancos, estes vêm se tornando cada vez mais conservadores por conta da recessão que se apresenta. E não interessa saber e dizer que são os próprios bancos que estão, numa grande extensão, retroalimentando este cenário. Tem que agir.

Abraços,

Fernando

Os dois primeiros links abaixo, da White House, talvez entrem para a história como sendo o registro do início da Grande Reforma que alguns acreditam estar por vir.

Neste final de semana, o presidente dos EUA, George W. Bush, recebeu as visitas ilustres do francês Nicolas Sarkozy e do português José Durão Barroso que representaram a União Européia. O objetivo foi alinhar o discurso sobre a necessidade de se iniciar uma reforma do “Sistema”.

Será uma batalha duríssima, tanto no plano institucional (dadas as diferentes visões dos governos envolvidos), como no plano privado (pois se os bancos mal e mal controlam seus próprios negócios, como controlar instituições que operam fora do sistema, como Hedge Funds?).

Não acreditem no que digo. Reflitamos:

1. Diferenças Institucionais

Enquanto a Europa não demorou para semi-estatizar vários dos seus grandes bancos, Bush resistiu até à beira do colapso do sistema. Para começar, europeus não gostam de bancos, finanças internacionais, derivativos e assemelhados. Já deste lado do Atlântico, respira-se e vive-se banking & finance.  A indústria de serviços financeiros tem um peso importante no PIB americano e no modo de vida do cidadão (que é fortemente endividado). Americanos são liberais até o DNA, enquanto que os europeus são estatizantes e centralizadores. Nos EUA, o sucesso e o destaque público são admirados e incentivados, enquanto que na Europa ocorre o oposto.

Traduzo a seguir uma parte do discurso de Bush: “…Na medida em que façamos as mudanças institucionais e regulatórias para evitarmos a repetição desta crise, é essencial que preservemos as fundações do capitalismo democrático – o comprometimento para o livre mercado, à livre empresa e livre comércio. Nós devemos resistir à perigosa tentação do isolamento econômico e continuar a respeitar as políticas de livre mercado, que subiram a qualidade de vida e tiraram milhões de pessoas da pobreza no mundo todo…”.

Notem que Bush começa bem, mas a sua insistência no não-intervencionismo deixa claro que os europeus terão uma parada dura pela frente.

Este link traz os três discursos oficiais (em inglês), pré-evento.

http://www.whitehouse.gov/news/releases/2008/10/20081018-1.html

Após o evento, saiu este pouco revelador texto para a imprensa (abaixo), onde lemos que após a eleição de Barack Ob…, perdão, após a eleição do próximo presidente americano, no dia 4 de novembro próximo, um Summit será convocado – será nos EUA de novo. A partir desse encontro é que veremos com que grau de profundidade os líderes mundiais estão engajados na criação de um mundo novo.

http://www.whitehouse.gov/news/releases/2008/10/20081018-2.html

2. Gestão de Riscos dos Próprios Bancos

Um dos bons motivos que os governos tem para reduzir o grau de liberdade que os mercados financeiros e de capitais têm é o fato das próprias instituições financeiras não terem o melhor controle dos riscos que correm.

Exemplos? A história recente (últimos 10 anos) é rica o suficiente para se escrever uma enciclopédia sobre o tema. Mas só nestes últimos 12 meses podemos listar:

  • O caso do francês Societé Generale onde um único trader perdeu USD 7 bilhões, numa fantástica fraude interna.
  • O grupo que controla a minha Coface, o francês Natixis, foi surpreendido com perdas ao redor de EUR 1 bilhão, com suas operações nos EUA. Vários executivos foram demitidos recentemente.
  • E um dos controladores do mesmo Natixis, o gigante Caisse d’Epargne, acaba de anunciar a demissão do seu CEO, após descobrir que perderam mais de 800 milhões de euros com operações que foram feitas além dos limites autorizados (ver abaixo).
  • http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aGigtrnYsrsc&refer=home
  • Sem falar no maior fiasco das finanças bancárias internacionais: a aquisição hostil que o ABN AMRO, da Holanda, foi vítima ano passado. Bem, vítimas mesmo foram 2 dois dos seus 3 compradores! O Fortis, da Bélgica, quebrou espetacularmente e a divisão holandesa do ABN acabou sendo estatizada. O Royal Bank of Scotland (RBS, que patrocina os carros da Williams na F-1) ficou ilíquido e desacreditado a ponto do Bank of England ter assumido o controle do banco. Só o Santander, que ficou com o Banco Real aqui no Brasil, escapou ileso da “Maldição Holandesa”.
  • Além do RBS, o sistema financeiro britânico ficou na penúria, pois seus bancos corriam muito mais riscos com hipotecas no próprio Reino Unido e nos EUA do que seus acionistas e reguladores tinham idéia.
  • Nem precisamos falar da banca americana, pois esta implodiu.
  • E em toda a Europa e boa parte da Ásia, a crise bancária atinge mais agentes a cada dia que passa (ver abaixo).

ING (Holanda): http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aFEb7sgN0P2M&refer=home

Bancos da Coréia do Sul: http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aM5S3bpWfGZo&refer=home

3. Outros agentes e ativos não regulados

Não bastasse a endêmica falta de controle dos próprios agentes do mercado e a disparidade ideológica entre EUA e Europa, há ainda uma séria questão a ser resolvida: o que fazer com Hedge Funds e Credit Derivatives (CDS), que não são regulamentados?

Eu tenho uma opinião genérica – essa turma tem que ser regulada e pronto -, mas o tema é complicado demais para nos alongarmos ainda mais neste post. Confiram estes dois links importantes abaixo:

Sobre CDS: http://www.nytimes.com/2008/10/19/opinion/19cox.html?_r=1&scp=1&sq=;;Quoteswapping%20secrecy;;Quote&st=cse&oref=slogin

Sobre Hedge Funds: https://blogdocredito.wordpress.com/2008/10/15/1133/

Bom, é isso. Levar o pêndulo de um extremo para o ponto médio será uma tarefa para os deuses…

Abraços, Fernando