Retorno de uma jornada de dois dias em Brasilia. Foi uma viagem rica, pois conversei com muita gente boa e senior, dos setores público e privado. Deu para sedimentar algumas visões importantes, as quais divido com os amigos:

I. A Origem da Crise do Crédito no Brasil

  1. Ela NÃO começou no dia 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou nos EUA.
  2. Ela APENAS se desnudou naquele momento.
  3. A inadimplência já subia consistentemente naqueles dias, só que era mascarada pelo crescimento dos ativos de crédito na economia.
  4. Já estava claro para muitos bancos que haviam emprestado mais do que deviam para gente/empresas que não tinham estofo para tamanho endividamento.
  5. A quebra do banco americano, com o consequente corte nas linhas externas, apenas acelerou o processo voraz de corte de linhas.
  6. Isto retroalimentou o processo de inadimplência já em curso.
  7. Agora que o estoque de crédito não cresce mais, a inadimplência não pára de crescer (em reais e na proporção do estoque de crédito).

II. Perspectiva da Crise de Crédito no Brasil

  1. A morosidade para a retomada do crédito no Brasil, não se dá, portanto, em função da recessão que está aqui instalada.
  2. Se dá – e continuará se dando – porque os bancos estão – e continuarão – ajustando seus portfolios de crédito. Em outras palavras, reduzirão o crédito para muitos clientes, cobrarão integralmente os empréstimos de outros tantos, etc.
  3. O Fabio Barbosa (CEO Santander/Real e Febraban) já disse – com propriedade – que o crédito não voltará a ser o que era antes, pois não há funding disponível para tanto tomador de crédito. Ele não disse e eu complemento, que não haverá oferta de crédito para muita gente, simplesmente porque os bancos e financeiras (e seguradoras de crédito) aprenderam que estes tomadores não eram suficientemente sólidos.

Portanto, concluo que a retomada do crédito – e da atividade econômica como um todo – se dará de forma mais lenta e gradual. Mas, se Deus quiser, de forma mais consistente.

III. Outras histórias/conclusões tiradas da minha viagem

  1. Senti preocupação séria por parte dos maiores bancos financiadores do comércio exterior brasileiro.
  2. Não me foi dito explicitamente, mas macaco velho cheira estas coisas: espera-se algumas grandes perdas de crédito no mercado. Outro dia o grande frigorífico Independência entrou em recuperação judicial. Senti que gente bem maior, neste e em outros setores, terão problemas.
  3. Há tempos eu brinco (sério) que todas as empresas tomarão um belo calote de um cliente que jamais imaginariam. Parece que eu não sou o único a acreditar nisto…
  4. Bom saber que o Banco do Brasil não parece ter problemas de funding. Mas caiu a demanda por linhas, porque cairam as exportações e o valor destas (principalmente das commodities).
  5. Outra coisa que venho ouvindo de bancos em geral: “Funding tem, o que não tem é bom tomador de crédito“. Os bancos estão muito refratários e tem a ver com o item  I deste post. E eu os entendo, porque aqui na Coface o volume de sinistros (i.e. empresas que dão calote nos meus clientes) cresceu barbaramente!
  6. O exportador brasileiro gostaria de tomar linhas de longo-prazo, para arrumar o seu passivo bancário, só que não há linha longa disponível, muito menos apetite dos bancos em oferecê-la.
  7. Outro fator: muitos exportadores estão sem ‘lastro’ para novos financiamentos curtos (ACC’s-ACE’s). Tomaram linha demais e não estão exportando suficiente. Isto é muito ruim.

É isso. Cautela e canja de galinha quando o assunto é crédito: seja dando prazo nas suas vendas, ou contando com o crédito para o seu capital de giro! Procure por linhas de crédito ANTES de precisar delas desesperadamente!

Abraços, Fernando

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Olá  – a Folha deste domingo trouxe duas matérias escritas pela Cristiane Barbieri, top do jornalismo econômico brasileiro. Eu, como presidente da seguradora de crédito Coface, sou entrevistado e divido com os leitores da Folha – e agora com a blogosfera – alguns números dantescos. Outros profissionais são entrevistados também.

Boa leitura + abraços, Fernando

Sem caixa, redes varejistas já dão calote

Asfixiados pela falta de crédito e pelo consumo menor, lojistas deixam de pagar a indústrias, que acionam seguradoras

Atingidas pela retração, concessionárias de carros e redes de eletroeletrônicos e têxteis negociam a sua venda para grupos maiores

CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL

Nos primeiros 19 dias de dezembro, a seguradora de crédito Coface teve de pagar a 103 companhias que forneceram seus produtos, mas não receberam de seus clientes. Do total, 80% das empresas que não honraram seus compromissos eram redes de varejo – concessionárias de carros, pequenas cadeias de supermercados, eletroeletrônicos e têxteis, que compraram, mas não conseguiram pagar aos fornecedores.
Nos meses anteriores, a Coface tinha pago, em média, 60 sinistros ao mês. Até o fim de dezembro, a seguradora espera ter 115 deles, sendo que o volume de reservas – a quantia de dinheiro que separa para pagar as perdas dos segurados – foi quatro vezes superior às reservas médias do ano. “Houve quebras de grandes varejistas regionais e, por isso, as reservas aumentaram”, diz Fernando Blanco, presidente da Coface, que detém quase 50% do mercado de seguro de crédito no país. “Alguns deles tinham faturamento anual de R$ 300 milhões a R$ 500 milhões.”
Na Crédito y Caución, que também segura valores que serão recebidos pelas empresas, houve 20 sinistros de agosto a novembro, 125% a mais do que no mesmo período de 2007. A maior parte, foram pequenos varejistas das áreas de eletroeletrônicos e têxtil.
Como parte do mesmo cenário, as grandes redes têm recebido ofertas de cadeias pequenas que querem ser compradas. As mesmas oportunidades têm sido oferecidas a fundos de investimento e estão em consultorias que têm mandatos de negociação para vendê-las.
“Como a economia vinha crescendo forte, os varejistas estavam muito estocados, com o caixa baixo e dívidas bancárias altas”, afirma Blanco. “Mas os bancos chamaram o crédito que concediam, os consumidores pararam de comprar e o varejo vive um momento de asfixia de liquidez.”
Apesar de a maioria dos especialistas não acreditar em uma quebradeira generalizada no setor nem esperar a derrocada imediata de uma grande rede de varejo, os sinais de crise estão por todos os lados.
A inadimplência no comércio, medida pelo número de inscritos no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), não só cresceu em dezembro como, pela primeira vez desde 2003, teve número maior de novos registros do que de pessoas que renegociam a dívida. Além disso, tanto as consultas para vendas à vista (pelo Usecheque), como as feitas para vendas a prazo (no SPC) caíram em novembro.
A queda na venda de carros de 29,5% em novembro em relação a outubro também foi forte, apesar de parcialmente minimizada pela redução do IPI anunciada pelo governo.

Crédito farto compensava ineficiências

Redes de varejo começam a reestruturar operações, mas empresas mais fragilizadas deverão passar por consolidação

Linha da CEF para varejistas tem 40 redes interessadas; empresas irão administrar dia-a-dia e buscarão crédito com a própria indústria

Robson Ventura-13.nov.08/Folha Imagem
 

Concessionária de veículos em SP, um dos setores mais afetados

DA REPORTAGEM LOCAL

A oferta de crédito farto e a demanda em alta, provocada pela entrada de novos consumidores na classe média, encobriam ineficiências do varejo, segundo especialistas do setor. “Com a contenção do crédito, tais ineficiências vieram à tona e as redes ficaram desnudas”, diz Fernando Blanco, presidente da seguradora Coface, que teve mais de 80 sinistros de redes varejistas em dezembro.
Entre os problemas apontados estão estrutura de capital inadequada, resultado de uma relação entre dívida e capital próprio desproporcional. Também há o descasamento de ativos e passivos, que são os recebimentos e as obrigações das empresas. Há ainda erros em planejamento estratégico, principalmente ligados a processos de expansão acelerada.
“Tudo isso funciona com o crédito abundante e o consumo em alta”, afirma Blanco. “Mas quando se pára de pedalar abruptamente, como aconteceu agora, a bicicleta cai.”
As compras de fim de ano e as promoções para desovar estoques deverão garantir capital de giro para o início do ano. A partir daí, os especialistas acreditam que a administração do negócio será literalmente diária, sem qualquer condição de planejamento no longo prazo.
“As empresas estão agindo como se houvesse a volta do processo inflacionário”, afirma Adalberto Viviani, sócio da consultoria Concept. “Cortaram estoques, aumentaram as entradas para 50% e estão apostando na volta do consórcio”, completa.
A intenção evidente é girar o caixa, ao mesmo tempo em que tentam reduzir a inadimplência. “Temos incentivado os varejistas a vender todo o seu estoque, a fazer caixa e evitar a todo custo ir a bancos”, diz Fábio Campos, gerente de serviços financeiros do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
Segundo Campos, depois de ver como as vendas se comportarão no Natal, a instrução é que os pequenos comerciantes passem a negociar os prazos de financiamento com a própria indústria. “A reposição de estoques será menor, e os negócios serão administrados no dia-a-dia”, diz Campos.
Viviani cita, como exemplo, o caso de um de seus clientes da área de embalagens, que tinha recebido 50% das encomendas habituais para dezembro. Depois de quatro dias, os pedidos tinham chegado a 65% do normal e, na última semana, estavam em 85%.
“A expectativa tem sido pior do que a realidade, pelo menos por enquanto”, afirma Viviani.

Indicadores confusos
Isso porque, mesmo os indicadores que mostram aumento no consumo, podem esconder, na verdade, uma tendência de queda futura.
“A venda de eletroeletrônicos, principalmente computadores, só não mostrou sinais de queda porque os consumidores resolveram antecipar a compra frente a alta do dólar”, diz Claudio Felisoni, coordenador do Provar (Programa de Administração do Varejo) da FEA-USP. “Vamos identificar sinais evidentes de crise, principalmente nas lojas que vendem produtos mais caros e dependem do crédito ao consumidor.”
Felisoni exemplifica a teoria falando das concessionárias. Se até três meses atrás um carro usado de R$ 30 mil era comprado pelo lojista com deságio de 17%, hoje ele paga 30% menos sobre o valor de tabela.
“A situação das concessionárias só não é uma hecatombe porque a indústria administra sua cadeia de distribuição de forma muito profissional”, diz Blanco. Já na área de eletroeletrônicos, que teve historicamente as piores quebras do varejo brasileiro, a Coface parou de aceitar pedidos de seguros.
“Acendeu a luz amarela naqueles segmentos que dependem de financiamento”, diz Eugênio Foganholo, diretor da consultoria especializada em varejo Mixxer. “Em muitas delas, boa parte da lucratividade vinha de receita financeira conseguida nos crediários, que diminuíram muito.”
Segundo levantamento do Corecon (Conselho Regional de Economia), o varejo movimenta R$ 15 bilhões em financiamentos de compras por ano. Mas 65% dos varejistas dependem de parcerias com bancos para financiar o consumidor.

Janela estreita
Mesmo com a situação de crédito mais escasso e caro, a CEF (Caixa Econômica Federal) abriu uma linha de crédito voltada especialmente ao varejo. A CEF financia o consumidor de determinadas redes, que até então parcelavam com capital próprio suas vendas.
Por enquanto, no entanto, a linha funciona apenas em projeto-piloto, testado com sete varejistas, com exceção do Estado de Santa Catarina, para o qual foi totalmente aberto em função das enchentes. No total, são 1.600 lojas atendidas.
Com R$ 2 bilhões disponíveis, a estimativa é que a linha de crédito seja oferecida em todo o país a interessados no fim de janeiro. Por enquanto, há 40 redes na fila.
“Não desenhamos essa operação por causa da crise, até porque uma estrutura dessa levou um ano e meio para ser montada”, afirma Milton Krueger, superintendente da CEF. “Pretendemos atender a 250 redes e 11 mil lojas.”

Consolidação do setor
Com poucas alternativas, no entanto, os consultores da área esperam que 2009 seja marcado por fusões e aquisições. “É bastante provável que haja consolidações no setor”, diz Luiz Fernando Biasetto, sócio da consultoria GSMD. “As empresas que estiverem capitalizadas certamente encontrarão boas oportunidades nas que estão mais frágeis.”
Enquanto isso não acontece, os consultores dizem que a demanda por prestação de serviços ligados a reestruturações começou a crescer desde novembro. “As vendas menores e situações como a substituição tributária obrigam os varejistas a buscar eficiência de maneira mais intensa do que durante a época em que o crédito era farto”, diz Biasetto.
Para alguns deles, o momento é importante para essa reorganização, uma vez que, passada a onda de compras de Natal, pode haver um recrudescimento da crise. “O agravamento da crise é inevitável”, diz Blanco. “O único antídoto é o investimento do governo em atividades produtivas, mas isso demorará meses até ser executado. Antes de melhorar, as coisas vão piorar.” (CRISTIANE BARBIERI)

Esta crise vem criando e adicionando nomes/termos muito engraçados para o dicionário financeiro. Exemplos:

  1. NINJA’s: são os clientes/tomadores de crédito americano que tinham NO INCOME (“renda”), NO JOB (“emprego) e NO ASSETS (“ativos”) e mesmo assim foram merecedores de crédito.
  2. ATIVOS TÓXICOS: são as notas e swaps baseados em ativos podres, tendo como principal exemplo os empréstimos feitos para os NINJA’s acima citados.

A lista é longa, mas esses dias eu ouvi um novo: as ZOMBIE FIRMS, ou “Empresas Zumbis”, i.e. que são mortas-vivas. Basicamente, são bancos e empresas cujos ativos perderam valor e/ou ficaram ilíquidas a ponto do governo investir pesadamente nelas salvando-as, segundo dizem, apenas temporariamente.

O analista que cunhou o tema cita: todos os bancos que vêm recebendo ajuda do Tesouro + FED, a AIG, as montadoras americanas, entre outras menos citadas. Esse mesmo analista defendia a tese que o governo deveria deixar quebrar e pronto. Difícil comungar dessa tese num momento delicado desses, mas dar sobrevida para instituições que perderão a confiança das pessoas e do mercado…mantê-las vivas trará algum benefício? Quem tiver opinião a respeito será bem-vindo!

Abaixo um link que trata do assunto.

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601109&sid=akqkcj7pcOGM&refer=home

E aqui na Terra Brasilis? Tem muita construtora/incorporadora e alguns bancos pequenos nessa condição, ao que nos parece. O tempo dirá.

Mas atente para um fato sério: antes de virar “zumbi”, a empresa MORRE! E você, empresário ou PF, tome muito cuidado com quem faz negócio e para quem vende a prazo (sem seguro de crédito), pois muita empresa e PF não irão pagar o que deve.

Abraços, F.

Acho que não há tema no mundo, neste momento, que me cause maior interesse intelectual do que as fórmulas pensadas/utilizadas para tirar os bancos internacionais do buraco, salvando, portanto, a economia global de uma depressão – e talvez o próprio capitalismo como nós o conhecemos.

Primeiro foi a idéia de Paulson & Bernanke que achavam que com meros USD 700 bi eles comprariam “ativos tóxicos” dos bancos, criariam um fundo de papéis podres e o mercado iria negociar esses papéis e tudo continuaria como antes. Em outras palavras, conseguiriam restabelecer a confiança do/no mercado. Nada aconteceu, conforme havíamos previsto aqui.

Depois evoluíram para onde eu achava que tinham que seguir: comprar participações acionárias dos bancos problemáticos. O FED e o Tesouro seguiram a prática britânica e o fizeram, só que de forma lenta e limitada. Não resolveu nada também, até para minha surpresa.

E por que? Está cada vez mais claro que o mercado (incluindo a Mrs. Mary, viúva do Kentucky, e o Mr. Smith, aposentado da Flórida) sabe que o conjunto de ativos podres dos bancos é grande demais. Qualquer solução que lance esses ativos a perdas, dilapidará o capital desses bancos, o que limitará sua capacidade de alavancagem (i.e. de emprestar). Além da falta de apetite de risco, teriam falta de capital regulatório mesmo! E o fato do FED/Tesouro entrar no capital dos bancos como minoritários não resolveria a questão, pois o governo seria acionista e isso não garante que o banco não quebraria (o capital injetado pelo governo viraria pó se os ativos fossem lançados a perdas).

OK, é confuso mesmo, lamento dizer.

Agora, no caso do Citibank, lançaram um terceiro modelo de resgate de banco que mistura dois instrumentos, como se um médico decidisse receitar uma combinação de dois antibióticos fortes, pois notara que um só não consegue debelar a doença.

O modelo:

  1. O governo continua injetando dinheiro vivo, pois precisa dar liquidez ao banco para que este possa honrar os depósitos que são resgatados.
  2. Mas agora o governo decidiu também garantir os ativos podres do banco. Em outras palavras, se o devedor do banco não pagar, o governo paga o banco.
  3. Essa solução restabelece o “trading” desses ativos podres criando-se um mercado para eles, pois o garantidor é o Estado.
  4. Melhor ainda, os bancos poderão tomar empréstimos (“repo”), oferecendo tais ativos garantidos pelo governo como colateral.
  5. A coisa toda foi estruturada como um seguro de crédito, com co-seguro (90% é risco governo, 10% é risco Citi). O prazo é de 10 anos, o que é longo o suficiente.

O link abaixo nos leva ao Financial Times, onde Laurence Kotlikoff e Perry Mehrling (economistas de Boston e Columbia), dois craques convidados do também-craque Martin Wolf, discorrem sobre o tema. Vale a leitura (em inglês).

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/finally-system-risk-insurance/#more-263

Então, “seus problemas acabaram”, como diriam os Cassetas? Não. Resolveu-se, aparentemente, o problema do Citi, mas existem outros milhares de bancos combalidos, de todos os tamanhos e dos dois lados do Atlântico. Francamente não sei como segurar tudo isso sem uma contrapartida monetária, i.e. um lastro do governo (como era o ouro). Estamos falando de um belo naco do PIB dos EUA!!

Também falta criar um sistema que classifique os ativos em função de sua real qualidade de crédito – esqueçam os ratings da Moody’s e S&P. Esses ativos serão (espero!) negociados por uma fração do seu valor de face e esse percentual dependerá da qualidade do risco. Na medida que a economia melhorar e os devedores começarem a repagar suas hipotecas (e os imóveis se valorizarem), naturalmente o valor desses ativos subirá e quem os detiver (“buy-and-hold”) ganhará dinheiro (em especial com o custo quase zero de financiar as posições).

E no fim das contas, não deixa de ser o velho e mal-falado “prejuízo socializado”. Afinal, sempre que um ativo der calote, o governo (i.e. o contribuinte) é que salvará a pele do investidor e do banco.

Ah, um dos meus heróis contemporâneos, Nobel Prize Winner Professor Paul Krugman ficou furioso com esse plano. Leiam abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/11/24/citigroup/

E a economia real? Se esse modelo destravar o trauma dos bancos que pararam de emprestar uns para os outros, assim como tranqüilizar seus gestores quanto ao futuro da própria instituição, poderemos ver o crédito voltar a irrigar a economia real. Nunca como antes, mas muito mais que agora. Quando? Mais 6 meses de sombras, pois a máquina demora “a pegar no tranco”. Teríamos mais 1 ano de recessão, mas escaparíamos da depressão mundial.

Meus amigos, essa combinação de ativismo governamental e criatividade é heavy metal. É como jogar uma bomba atômica no olho do furacão da crise. Se isso não funcionar – e nada garante que irá funcionar – seremos todos funcionários públicos. Já pensou, o Lada (da extinta URSS) sendo carro oficial em Washington? 🙂

Gorbachov para Presidente…do Mundo!

Abraços esperançosos!

Fernando

PS: mas que ninguém pense que eu acho que deve-se resolver o imbróglio e ficar por isso mesmo. Tem que processar e prender quem fez coisa errada, cortar o bônus desse povo, etc., etc.

Caros:

É complicado elogiar uma reportagem onde eu sou entrevistado, mas vou elogiar do mesmo jeito. A Cristiane Barbieri, fera da Folha de SP, conseguiu encadear a visão de empresas, banco, segurador de crédito e economista com uma lógica impecável e alto nível de informação.

Boa leitura + abraços, Fernando

12/10/200811h09

Escassez de crédito muda financiamento de empresas

CRISTIANE BARBIERI
da Folha de S.Paulo

Até duas semanas atrás, a fabricante de alimentos brasileira General Brands tomava empréstimos para capital de giro pagando juros de 3% ao ano.

Depois do início da crise do crédito, o “spread” (preço do dinheiro cobrado pelos bancos) passou para 12% anuais. Com 5% de sua receita anual de R$ 120 milhões provenientes de exportações, a empresa também usava de ACCs, mecanismo financeiro que permite antecipar o faturamento obtido com exportações em até seis meses. Só que esses, simplesmente, deixaram de existir.

Entenda como a crise dos EUA afeta o Brasil
Veja a lista de medidas já anunciadas no Brasil para combater a crise

“Não faz sentido pensar que as mesmas empresas que duas semanas atrás estavam ótimas agora estejam quebrando”, diz Antonio Carlos Ferreira, vice-presidente da General Brands. “Existe a crise, mas os bancos estão aproveitando para tirar vantagem e ganhar em dois meses o que ganhariam no ano.”

A solução encontrada por Ferreira foi de curto –na verdade, curtíssimo– prazo. Renovou as operações de crédito por apenas um mês, esperando “a volta do bom senso”. Enquanto isso, negocia com a cadeia de fornecedores e clientes.

“Nós, na verdade, gostaríamos de estar mais ao lado da empresa do que conseguimos com nossa disponibilidade de recursos”, afirma Carlos Catraio, presidente do banco BPN Brasil, especializado em pequenas e médias empresas. “Mas, além de o tíquete médio [dos empréstimos] ter diminuído por conta do risco, o cliente está pedindo mais dinheiro emprestado porque muitos bancos com os quais trabalhava estão negando crédito.”

Além disso, diz Catraio, há mais empresas buscando dinheiro. Entre elas, as multinacionais que, até há pouco, tinham linhas mais baratas ou traziam recursos de suas matrizes. “Muitas multinacionais jamais olharam para linhas de crédito à exportação como as do BNDES”, afirma Catraio. “Esse, porém, é um dos poucos recursos que não está escasso e apenas não aumentou sua participação consideravelmente em nossa carteira porque sua liberação é demorada.”

Se no curto prazo o cenário para as empresas parece crítico, num horizonte mais distante as perspectivas também não são muito animadoras, dizem especialistas. Para Catraio, há uma grande preocupação no mercado quanto à capacidade de honrar pagamentos das empresas estrangeiras que importam do Brasil.

Especializada em segurar os créditos que serão recebidos pelas empresas, a Coface cobria, em média, 81% dos recebíveis de seus segurados. Nos últimos dois meses, o percentual garantido baixou para 60%.

“É uma medida preventiva da seguradora, que percebeu a deterioração nas condições de risco das empresas”, afirma Fernando Blanco, presidente da Coface do Brasil e que trabalhou com crédito e gerenciamento de risco em grandes bancos por mais de 20 anos.

Isso porque, diz Blanco, ao não conceder empréstimos às empresas, o sistema financeiro acaba por criar um efeito dominó, repassado a toda cadeia produtiva.

A Lupo tem vivido exatamente essa situação. Os grandes magazines que financiam o consumidor com vendas a prazo começaram a procurar a fabricante de roupas tentando estender os pagamentos por não estarem encontrando linhas de capital de giro junto aos bancos.

“Alguns suspenderam pedidos, mas não temos como estender recebimentos porque trabalhamos com prazos curtíssimos de compra de matéria-prima, com pagamentos em 30 dias”, diz Valquírio Cabral Júnior, diretor comercial da Lupo. “Nossa sorte é que os grandes magazines representam apenas 20% do faturamento.”

No meio dessa restrição do acesso ao capital, a empresa tem ainda de enfrentar a pressão vinda do outro lado: a do aumento na matéria-prima cotada em dólares. Segundo Cabral Júnior, alguns fornecedores já acenam com reajustes médios na faixa de 12%. “É claro que não temos como absorver um aumento desses, já que os clientes não aceitarão um repasse com as vendas de fim de ano já fechadas”, diz ele. “Estamos em negociação.”

Para o economista Roberto Troster, sócio da consultoria Integral-Trust, cabe ao Banco Central “dar um passo abaixo e olhar também para as empresas”, em vez de ajudar apenas os bancos, usando com agilidade políticas monetárias que garantam liquidez. “Se a economia parar em razão do crédito, o prejuízo será gigantesco”, diz Troster. “Demora muito tempo para as empresas retomarem sua produção.”

Para Blanco, da Coface, uma das hipóteses a ser adotada pelas empresas, tão logo o momento mais agudo da crise passe, será a busca do crédito nas próprias cadeias produtivas. Nesse caso, as empresas âncoras –como grandes montadoras– acabam financiando ou facilitando o acesso ao crédito de seus fornecedores menores.

Essa realidade foi vivida no Brasil até cinco anos atrás, segundo Blanco, quando o excesso de liquidez e a oferta de crédito passaram a irrigar o setor produtivo. O quadro, porém, começa a se inverter e as empresas agora acham alternativas para o papel de financiador ocupado pelos bancos.

Maior distribuidora de produtos de informática do Brasil, com faturamento anual de R$ 1 bilhão, a Officer não sentiu restrições ao crédito, mas o custo do dinheiro tomado aumentou. A empresa, porém, tem recebido mais pedidos de revendedoras para que ela fature diretamente para o consumidor final.

“Temos muitos casos de revendedores de pequeno porte que atendem clientes de médio porte”, diz Fábio Gaia, presidente da Officer. “Ao atuar como intermediário, esse revendedor não tem encontrado crédito bancário, que está simplesmente paralisado. Temos, então, usado nosso aval de empresa grande para faturar direto para o cliente, pagando a comissão do revendedor.”

Segue abaixo reportagem do Valor Econômico de hoje, editada para manter o foco. Há vários motivos para o maior varejista do país aumentar o prazo de vendas. Tentemos ler e concluir o que não está escrito:

  1. MUITO PROVÁVEL: Mesmo os bons clientes da casa (aqueles que ao pagar a 5a parcela da geladeira são seduzidos a comprar, sempre a prazo, e.g., um dormitório) estão com o orçamento esgotado e o salário não mais acomoda novas parcelas de crediário.
  2. MUITO PROVÁVEL: Mesmo sem fazer novas compras, muitos clientes estão com o poder de compra reduzido, por conta da inflação.
  3. POUCO PROVÁVEL: Passaram a atingir um novo nicho de clientes, com menor poder aquisitivo, que precisa de mais prazo para que a parcela do crediário se acomode no orçamento mensal.
  4. SERÁ?: o aumento dos juros (SELIC) foi baixo demais e os grandes varejistas conseguem boas taxas de juros dos grandes bancos. Será que repassaram os juros com um spread muito alto?

De qualquer forma – e mesmo respeitando a inegável competência da família Klein na gestão do risco de crédito no varejo -, definitivamente não me parece a hora de expandir esta carteira. Afinal, alongar prazo é extender risco.

Pelo contrário, o movimento que detectamos aqui na Coface (www.coface.com.br) é uma contínua e crescente aversão ao risco de crédito comercial. Daí a nossa carteira de seguros ter duplicado nos últimos 12 meses!!

Abraços, F.

Casas Bahia estica prazo de pagamento

Claudia Facchini, de São Paulo
14/08/2008

Com a alta da inflação e dos juros, as varejistas colocaram em prática o “plano b” e conseguiram fazer com que os consumidores não saíssem da loja sem comprar. A Casas Bahia, maior rede de eletrônicos e móveis do país, ampliou o número de prestações para não precisar aumentar o valor das parcelas, o que suavizou o impacto de juros e preços mais salgados. Em vez de oito vezes, a varejista passou neste ano a dividir, em média, os pagamentos em dez parcelas fixas.

Você empresário bem sabe que dinheiro bancário não é a única fonte de financiamento para o seu negócio – seguramente não é a mais barata.

Há todo um grupo de agentes econômicos não-financeiros que lhe ajuda na árdua tarefa de colocar o seu negócio em pé e marchando, como por exemplo: fornecedores que dão prazo para pagamento, funcionários que só recebem a cada 30 dias, entidades governamentais que dão variados prazos para recolhimento de taxas e impostos, etc.

Dentre estas óbvias, eu acho que os Fornecedores ainda formam uma classe de “financiadores” mal trabalhada. Se por um lado todo e qualquer fornecedor (e seus vendedores!!) querem lhe vender um monte, estes têm que cumprir procedimentos de crédito (quase que nem um banco), i.e. não podem lhe financiar volumes ilimitado, nem por qualquer prazo que lhe agrade. Mas você, empresário, pode fazer algumas coisas para melhorar o seu crédito com seus fornecedores:

  1. Capriche na forma em que apresenta suas finanças. Se os seus demonstrativos financeiros são, como dizer, pura ficção cientifica, seja transparente e informe com clareza os números de verdade;
  2. Exponha a sua estratégia – seja de crescimento, se for “oceano azul”, ou de defesa, em caso de “maré vermelha” – e como você pretende estimular negócios com este dito fornecedor;
  3. A concorrência é ótima para se obter maiores volumes e prazos mais longos. Sempre terá algum outro fornecedor disposto a querer mais espaço na sua prateleira, ou na sua linha de montagem, não e?!
  4. Esteja conectado com o negócio de seguro de crédito (www.coface.com.br) – sim, é onde eu trabalho. Oferecemos poderosas soluções para alavancar negócios comerciais (i.e. mais crédito para você).

Agora, hoje eu aprendi, lendo o link abaixo, que você também pode se financiar com os seus (futuros!) clientes. Pode parecer “coisa de americano”, mas faz todo sentido. Quer dizer, desde que você tenha MUITA CREDIBILIDADE com sua base de clientes. Aliás, credibilidade é um atributo essencial no mundo do crédito, desde os tempos em que os Lombardos criaram as primeiras casas bancárias no norte da Itália.

Boa leitura + abraços, F.

http://www.businessweek.com/smallbiz/content/may2008/sb2008055_070283.htm?chan=search