Caros – o Estadao de hoje trás está ótima entrevista , de D.Friedlander e L.Modé, com o Ministro da Fazenda Guido Mantega. Muito interessante.

Eu comento apenas a visão do Ministro sobre os juros, que é bastante alinhada com a imensa maioria de analistas da cena econômica nacional.

  1. Centra exclusivamente nos bancos a responsabiliade pela redução do spread. Esquece que bancos epitomizam a essência do espírito do capitalismo, i.e. não cobram caro porque são maus, nem cobrarão menos por serem criticados – apenas cobram o que seus clientes estão dispostos a pagar. Sem falar que o governo é sócio do spread elevado, pois taxa a intermediação financeira.
  2. Acerta ao citar e estimular a competição entre os bancos, via bancos públicos, para a redução do custo do dinheiro. Mas não aborda duas questões que considero essênciais: educação financeira e creditícia e o custo de crédito que os bancos públicos enfrentarão com a inadimplência futura (por conta da liberalidade presente).
  3. O Ministro – e todo mundo menos eu – parece acreditar naqueles “gráficos de pizza”, que procuram interpretar o spread bancáro a partir das suas partes. Como estas análises interpretam o lucro dos bancos a partir de uma ‘fotografia’ apenas do último balanço publicado, são sujeitos a uma infinidade de erros.

Boa leitura + abraços, F.

Dados: ABPO, via Blog da Miriam Leitão

Primeiramente, espero que todos tenham tido uma Feliz Páscoa!

O gráfico acima mostra três coisas:

  • Duas curiosidades: o pico das vendas de 2008 foi mais alto do que nos anos anteriores e a queda também foi muito mais vertiginosa.
  • Uma importante: a curva de vendas começa a se recuperar.

O papelão ondulado é um item que nos ajuda a entender a atividade econômica, pois é chamado de “embalagem das embalagens”. Quase tudo é embalado em papelão ondulado. Quando se produz e vende-se muito, há muito o que se embalar e, portanto, o papelão ondulado vende que nem ‘pão quente’. A recíproca é 100% verdadeira.

Hoje, Márcia De Chiara, do Estadão, nos traz duas matérias bastante ilustrativas sobre a produção no Brasil. Ver a seguir: Economia dá sinais de recuperação e Nocauteada, indústria perde R$25 bilhões em 6meses.

A segunda matéria ilustra o trágico último trimestre de 2008, com perda de rentabilidade. A reportagem não aborda, mas a indústria perdeu crédito também – volume e prazo, com custo mais alto – e é isto que atrasa a retomada dos negócios.

Já a primeira matéria demonstra o que o gráfico acima torna transparente: muito setores voltaram a produzir. A razão é simples e fundamental: os estoques estão se ajustando. As liquidações de Natal e pós-Natal fizeram efeito e as prateleiras e armazéns começaram a ficar vazios.

Atenção, ninguém – que eu saiba – está investindo! Estamos falando de retomada da produção básica, mas isto é importante para manter e recuperar aos poucos os empregos perdidos. A retomada dos investimentos em novas fábricas, linhas de produção, etc., dependerá do otimismo do consumidor e do empresariado – e em seguida dos banqueiros! Estamos londe disso ainda. Teremos um projeto aqui e outro alí, motivados por um ou outro empresário visionário, arrojado e capitalizado. Se faltar qualquer um destas três características, não tem expansão.

O crédito está se recuperando, aos poucos, via empréstimos para as grandes empresas, que repassam sua liquidez para fornecedores e clientes (via prazo de pagamento). Os bancos começam a analisar os balanços e notam que, apesar da hecatombe do final de 2008, as empresas estavam suficientemente capitalizadas. Isto viabilizará a retomada do crédito para capital de giro.

Spreads – estes só cairão na medida que a oferta de crédito ultrapassar a demanda. A demanda anda fraca – porque os negócios andam devagar -, mas para as empresas transparentes e profissionais no Relacionamento Bancário os spreads JÁ ESTÃO CAINDO – E RÁPIDO!

Amigos, o crédito voltará para o seu negócio – em volume, prazo e preço mais baixo – mais rapidamente se você for transparente com seus bancos. Só isto funciona. Palavra de escoteiro!

Abraços e ótima semana!

Fernando

PS: a inadimplência (em geral) está muito alta e continuará subindo. Na minha opinião, este processo só se reverterá a partir de junho/julho.

Prezados,

Finalmente saiu o número que todo mundo queria saber: a economia brasileira recuou 3,6% no último trimestre de 2008. Um senhor tombo! Esto dado ofusca o saudável crescimento do PIB acumulado de 2008 de 5,1%. Afinal, se por um lado o pequeno “retrovisor” mostra que fomos bem até o 3o. trimestre, o imenso parabrisa frontal não engana: os tempos são difíceis.

A indústria brasileira expirementou uma retração de assombrosos 17% (janeiro’09 vs.’08) e um crescimento de apenas 2% contra o combalidíssimo mês de dezembro último. Estes péssimos números foram apenas um reflexo dos números agora divulgados pelo IBGE.

E os juros – a taxa SELIC (que, em geral, só importa para quem é aplicador ou para uns poucos grandes grupos econômicos que pagam [ou pagavam] juros anuais perto da SELIC), ao que tudo indica, irá cair entre 1,5% e 2% na reunião do COPOM de amanhã. Virá para algo ao redor de 11%. Se é 10,75% ou 11,25%, isto só interessa para os traders de juros futuros na BMF. Ah, sim, e para o governo também, pois sua dívida pública nos remunera à base de SELIC, i.e. quanto mais ela cair, mais o Tesouro economiza no pagamento de juros, podendo construir escolas, hospitais, distribuir bolsa-família, etc.

Enfim, seja 1%, 2% ou 3%, esta queda de juros se dará porque o BC estará convencido que a atividade econômica está de joelhos e que, portanto, não há chance da inflação voltar a assombrar o COPOM. Nada a se comemorar, portanto, pois o endividado que vier a pagar menos juros (isto se os juros na ponta cairem também, que fique claro!), também estará, provavelmente, vendendo menos e gerando menos caixa!…

O spread – é assim: os juros na ponta são função da oferta de crédito versus a demanda por crédito. Os números do PIB vão assustar os bancos ainda mais, pois estes sairam pior do que os próprios analistas dos bancos esperavam. Se a SELIC cair 2%, mas os juros na ponta cairem, digamos, 1%, então o spread aumentou.

Uma coisa é certa, os juros na ponta cairão mais lentamente do que a SELIC. E cairão primeiros para empresas e cidadãos que se ‘venderem’ corretamente para os bancos, i.e. forem transparentes, demonstrarem claramente sua estratégia de negócio, seus números, riscos e mitigantes do seu negócio. Em outras palavras, cairá mais e primeiro para aqueles que tiverem um plano de negócio para enfrentar a crise.

Para os que praticarem o oba-oba, a SELIC cairá, mas os juros pagos continuarão no mesmo patamar…

Bancos públicos – vem sendo noticiado – e o amigo do blog Guilherme comentou aí embaixo – que os bancos federais estão emprestando mais, cobrando menos juros e lucrando mais. Sem querer parecer metido, mas sendo mesmo assim, eu conseguiria escrever dois textos, ideológicamente construídos, um defendendo a expansão da banca pública e outro tripudiando com ela.

O fato é que:

  1. Os bancos públicos estão fazendo política econômica, ajudando a destravar o crédito, ainda que parcialmente.
  2. Estes bancos estão ganhando muito agora – o que é normal e justo -, mas também estão sendo menos precavidos ao assumir riscos maiores.
  3. Partes destes lucros serão devolvidos em 6 meses, quando a inadimplência aumentar. Não tem “almoço grátis” (do inglês There is no free lunch).
  4. Os bancos públicos estão fazendo política anti-cíclica, enquanto os bancos privados só fazem agem ciclicamente, i.e. empresta guarda-chuva em dia de sol, toma o guarda-chuva se vier temporal. Isso acontece no Brasil, na França e na Costa do Marfim e é dever de ofício do banqueiro.
  5. Os acionistas privados destes bancos já sabem que isto faz parte da missão do banco estatal. Se não gostam de ver o capital do banco ser usado para tais fins, que comprem ações de bancos privados.

Oligopólio – o Valor de ontem traz um editorial em que Armínio Fraga é citado como “estando preocupado com o oligopólio do sistema financeiro brasileiro“. Vejamos algumas verdades:

  1. Pouco banco não significa que o crédito será escasso e os juros elevados. O grande exemplo vem da Holanda, onde 3 bancos dominam completamente o sistema e, ainda assim, os juros estão entre os mais baixos do mundo, cortesia do lendário pão-durismo do simpático e trabalhador povo batavo. Lá, a turma poupa muito e se endivida pouco. Em outras palavras, cabe a cada um de nós fazer com que tenhamos oferta de crédito bem acima da nossa necessidade, pois só assim pagaremos juros menores. Se, por outro lado, você se mostra um péssimo risco para os bancos, o país poderá ter 2 mil bancos e os juros que você pagará serão estratosféricos ainda assim.
  2. Pouco banco significa margem de negociação reduzida. Num país como o Brasil, em que 5 bancos darão as cartas, se você se relacionar mal com 2 deles vai ter problemas. E isso é perfeitamente comum. Desaparece aquele velho axioma: “Eu nunca mais faço negócio com o Banco X, porque eles me fizeram isso e aquilo!”. Bem, a partir de agora é bom guardar o seu orgulho, pois nunca sabemos o dia de amanhã, ou, nestes tempos bicudos, como será hoje depois do almoço…
  3. Pouco banco funciona bem em país onde o mercado de crédito é maduro e, portanto, sua população tem educação creditícia. Estamos longe disso. Nossos bancos não são experientes em crédito e nossos tomadores menos ainda. O futuro será complicado neste campo.

Em suma, a tendência é que os juros na ponta continuem muito salgados por vários anos. Esta reversão se dará quando a Tempestade Perfeita se dissipar, i.e. (a) as empresas mostrarem bons resultados com consistência, (b) os bancos retomem a confiança perdida, (c) as linhas externas voltem, provendo liquidez, (d) o brasileiro reduzir seu apetite por crédito caro.

Abraços e boa 4af! F.

Caros,

Este assunto me irrita. E deve irritar muito mais os milhares de brasileiros que enfrentam problemas sérios com as suas dívidas (bancárias ou não). Já escrevi textos mal humorados porque vejo a FIESP, o BC, o Ministério da Fazenda e a mídia inteira bater sempre na mesma tecla – …na tecla errada. Os exemplos dos últimos dias:

  1. O BC finalmente tornou pública – de forma transparente – a tabela de juros dos bancos. Só que o próprio BC irá rever a metodologia, pois gerou uma gritaria sem fim.
  2. O Sr. Paulo Skaf, da FIESP, foi à loucura ao pregar cadeia para o…quem?…HSBC, que segundo a lista do BC cobra os juros mais altos do mercado.
  3. O Presidente do BC, Henrique Meirelles, diz para os políticos que vai pegar pesado pela queda dos juros bancários. Que é isso? Palanque para o governo de Goiás?

Os fatos são:

  1. Um triste fato da vida é que as empresas brasileiras estavam mais estocadas do que nunca, porque o país crescia muito rápido (acima de 6,5% a.a., em setembro) e o Natal chegava. E por conta disso todas tinham mais dívida do que o normal.
  2. O cidadão brasileiro também estava mais endividado do que nunca – porque a oferta era grande e o brasileiro não faz conta, i.e. compra uma geladeira na Casas Bahia ou no Magazine Luiza, e faz as famílias Klein e Trajano felizes porque pagam a geladeira e um fogão (de juros).
  3. Quanto as linhas externas secaram para os bancos brasileiros e para o grande empresário local que se endividava lá fora, houve um grande gargalo no crédito doméstico.
  4. Eu, você, o Bradesco e a Petrobras estamos com menor oferta de crédito e  – só por isso – pagamos juros mais altos. Exemplos:
  5. Juros para uma das maiores multinacionais do mundo: 125% do CDI
  6. Juros para um dos maiores grupos empresariais do Brasil: 160% do CDI.
  7. Juros para um grupo brasileiro que fatura mais de R$ 1 bilhão: 188% do CDI.
  8. Juros pagos para o F.Blanco, segundo oferta por escrito, de um banco internacional (ex-primeira linha): 105% do CDI.

Nota: CDI é a taxa média dos juros interbancários e costumava ser semelhante à SELIC (taxa básica do BC).

Deu pra notar a situação? Como lutar contra isso?

A Petrobras e o Bradesco estão se virando para conseguir mais crédito. O cidadão e a pequena/média empresa brasileiros, não o fazem direito. Reclamam, xingam os bancos, etc. Nada disso adianta.

Vejam este post do J.P.Kupfer. O post é bom e pronto, mas o “””destaque””” aqui vai para os comentaristas. É uma falastrice sem fim, que não ajuda em nada a vida de ninguém. Se o tempo que perdem berrando palavras de ordem, fosse usado para fazer uma boa pesquisa de preços e serviços, aí sim se dariam melhor. E o mesmo raciocínio é válido para empresários.

Eu já falei com meia FIESP/CIESP sobre como as empresas podem e devem se defender dos juros altos! Alguém me ligou? Não! Até parece que não querem solucionar o problema. Afinal, se não houver problema não haverá microfones à disposição para a gritaria de sempre, né?

Mas é óbvio que não é isso. Ou será que é ? Skaf e companhia querem a solução do problema. Só não sabem como fazer…e desprezam ajuda externa.

Olhem aqui a famosa lista do BC. Separei dois exemplos: Pessoa Física – CréditoPessoal e Pessoa Jurídica – Capital de Giro Pré. Compare  os bancos e compare o quanto você paga. Vá na agência e converse com o seu gerente, para tentar entender os juros que você paga e o que o BC publica. E assunte por que outros bancos cobram menos.

Mas atenção: compare banana com bananas. Exemplo: eu e você não teremos crédito jamais no Banco Itaú BBA, que é voltado para grandes empresas. E se quiserem procurar os bancos, este link da Febraban ajuda.

E leiam aqui no Blog a sessão Melhore o seu Crédito. Lá tem boas dicas, palavra de escoteiro.

Perguntem, critiquem, etc., mas sempre voltado à busca de solução, pois do contrário é perda de tempo.

Abraços, F.

Duas estrelas, ainda que de constelações e em momentos de vida diferentes, estiveram na mídia desta 3af.

1. F.Barbosa

Aqui no Brasil, o Estadão traz ótima entrevista, do D.Friedlander e do L.Modé, com o Fabio Barbosa (Presidente da Febraban e do Santander) – pena que o Estadão tenha metido um cadeado na versão eletrônica. Com sua desconcertante educação e franqueza, o Fabio está saindo-se cada vez melhor na hercúlea tarefa de humanizar o satanizado mercado financeiro brasileiro.

Reproduzo (i.e. digito) o destaque da versão imprensa:

“A sociedade não quer aceitar, mas o crédito não vai voltar a ser como antes. O que se faz? Busca-se um culpado. Não vai voltar, não adianta. Foi o excesso de crédito que criou o problema de crédito que temos hoje. Não tem dinheiro para todo mundo. O crédito está voltando, mas não como antes. Cobrem do Bush, do Obama, mas não de mim. As empresas que antes pegavam dinheiro no mercado internacional agora estão pegando aqui dentro. Não tem dinheiro para todo mundo. Agora, se a minha carteira de empréstimos está crescendo, como é que alguém pode dizer que o banco não está emprestando? É lógico que estamos emprestando.

 2. Alan Greenspan

Já o Financial Times traz o outrora eudeusado – e agora achincalhado – Alan Greenspan. Ele (eu e em breve até a Torcida Jovem do Santos) concorda com a NACIONALIZAÇÃO dos bancos americanos. O diferente da análise de Greenspan é que ele sugere que os senior bondholders (alguém que comprou um título/ação preferêncial) sejam preservados, sob pena desta modalidade de investimento ficar desacreditada no mercado, dificultando futuras captações dos bancos.

3. A Visão do Blogueiro

O Fabio tem toda razão no que diz. No entanto, a bronca é outra e como não foi perguntada (ou publicada), ele não respondeu, ao menos diretamente. Ele deixa claro – e eu concordo – que falta funding para o estoque de credito que havia antes do Big Break (“A Grande Freada”), mais a demanda adicional que ele cita, i.e. tomadores, como Petrobras, que passaram a disputar os centavos disponíveis comigo e com você, amigo do blog.

Então, os bancos, com mais jeito ou truculência, acabam reduzindo ou cortando as linhas de quem eles acham que:

  1. Representa risco demais para o seu capital – culpa da crise.
  2.  Não é um cliente tão relevante assim – culpa da limitação de funding.

Lembram do filme A Escolha de Sofia? É só isso, os bancos estão fazendo “escolhas de Sofia” diariamente.

O corte de linhas é forte, me dizem empresários e amigos dos próprios bancos. E se o volume de crédito cresce é porque estão emprestando mais para as grandes empresas (que tomavam dinheiro lá fora) do que estão cortando dos pequenos e médios, de mim e de você. Portanto, no consolidado o crédito cresce, mas na pulverização ele piora. Aliás, o Henrique Meirelles usou este mesmo argumento para dar a entender que o “crédito está se normalizando”. Não está. Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Acho que o H.Meirelles podia ter ficado sem essa, pois não ajudou em nada a biografia dele…

E o que acontece quando a oferta de crédito (ou de tomate, pasta de dente ou minério de ferro) é menor do que a demanda? O preço sobe, não é?! Pois é, spread é o nome do preço do dinheiro. É só por isso que o spread bancário andou subindo, apesar da SELIC ter caído.

Esta é um fotografia fidedigna do quadro atual. Soluções possíveis ficam para um próximo post, mas não há nada muito heterodoxo para se inventar, lamentavelmente…

Saudações, FB

PS: este post acabou solapando o recém publicado L.C.Mendonça de Barros, Bad Bank, Good Bank . Vale a pena conferir, pois foi baseado numa dúvida de um amigo do blog.

Prezados,

Na noite desta 5af, o canal 40 da TV a cabo foi inundado por dois FB’s, Fernando Blanco (eu) e Fabio Barbosa (Presidente dos bancos Santander e Real, além da Febraban). Eu fui entrevistado no programa Conta Corrente e o Fabio o foi num Globonews Painel, com a Miriam Leitão no comando.

Foi uma overdose de crédito, juros e crise econômica. Só faltou terem recomendado que pessoas com propensão à depressão se medicassem (com Prozac, Eufor, Efexor, Cymbalta, etc.) antes do “show” ou que saissem da sala.

20:30 – Conta Corrente, com F.Blanco: Discussão geral sobre as condições de mercado, crédito, exportações, etc. Ressalto o que lá disse:

  1. Ninguém sabe, nem tem como estimar, como esta crise irá se desenvolver ou terminar. Esta é uma crise genuinamente de crédito e ninguém sabe como lidar com ela.
  2. Existe mais torcida do que propriamente técnica, quando dizem “no segundo semestre a coisa vai melhorar”.
  3. Os maiores bancos do mundo estão em crise e sem condição de retomar os financiamentos.
  4. Desta forma, as principais economias do mundo não conseguem se reerguer.
  5. Investidores – em ações ou empresas – perderam muito dinheiro e sem financiamento – antes abundante – também não conseguirão estimular as economias (em especial as emergentes).
  6. Grandes empresas também sofreram forte baque e adiaram investimentos produtivos.
  7. O cidadão americano está endividado em excesso, sem credito e com a confiança em baixa (europeus e japoneses idem, salvo o fato que seu endividamento é mais baixo).
  8. O Brasil só ter sua situação melhorada quando as seguintes situações acontecerem: (a) houver uma retomada do crédito bancário, (b) a economia mundial se aquecer (melhorando comércio exterior e fluxo de investimentos para o mundo emergente). Quando? Jogue um tarot, ou buzios, para descobrir e depois me conte.
  9. Vivemos de esquizofrênia credíticia no país, pois o mesmo conservadorismo dos bancos, que nos fez sofrer menos nesta crise e que nos fará acelerar mais rapidamente ao final da mesma, agora atrapalha o quadro econômico, pois os bancos conservadores não emprestam como se esperaria. Moral da história: é melhor não emprestar e ter o sistema financeiro sólido, ou emprestar errado e depois ver-se deteriorado na hora da ‘re-largada”?

21:30 – Espaço Aberto, com Fabio Barbosa: Se no meu programa a coisa correu solta, sem embate, neste programa a Miriam Leitão tinha uma missão: arrancar do Presidente da Febraban “uma confissão de que os spreads são altos mesmos”. Ela tentou pra valer, foi por vezes indelicada, não deixava ele concluir o raciocínio, usou e abusou de vídeos que batiam nos bancos, jogou o peso de décadas (umas duas e meia apenas) de militância no jornalismo econômico e…

  1. Não arrancou a tão desejada confissão. Mas tentou com galhardia. Poucos jornalistas teriam sido tão incisivos como ela foi – sem medo algum de ‘perder a fonte’.
  2. É impossível brigar com o Fabio, porque ele não briga. É educado demais! Eu o apelidei de Dalai Lama do mercado financeiro um dia – acho que falei isso pra ele um dia.
  3. O Fábio nos antecipou algo muito positivo: a Febraban passará a informar os juros cobrados por cada instituição financeira.
  4. Adorei quando ele comparou a dinâmica de “compra” de dinheiro (i.e. empréstimo) com a compra de uma geladeira. Em minhas exageradas palavras, eu quis dizer o seguinte: quando o Warren Buffet e o engraxate dele vão tomar um café ali na esquina, os dois pagam o mesmo preço pelo café. Mas se os dois forem até uma agência do Bank of America pedir um empréstimo de USD 1.000, por 180 dias, Mr. Buffet pagará juros bem mais baixos do que o engraxate. Dinheiro é uma das únicas “mercadorias” em que o preço muda dependendo do comprador e que o vendedor (i.e. o banco) até se recusa a vender. Outro negócio que tem esta mesma natureza é o seguro. É porque crédito e seguro têm risco embutido na essência da transação e o risco muda de cliente para cliente – simples.
  5. Ela não perguntou e ele não abordou: (a) funcionamento do comitê de crédito do banco; este sim é o fórum que dá a direção para onde o banco seguirá no crédito, (b) por que tem empresa que paga até 3 vezes mais spreads do que outra, do mesmo porte e setor? (c) o que o cliente do banco pode fazer para pagar menos juros…belas oportunidades perdidas!

Espero que os videos funcionem – estou com dificuldade para assistir o do Espaço Aberto – porque foram bem legais.

Por favor, critiquem, comentem, etc. Abraços, F.

Bom dia. Rapidinho.

Este espaço nunca foi dado a malhar o governo até por que isso não ajuda nada a resolver os nossos problemas e eu também sei um pouquinho das dificuldades que a turma enfrenta lá em Brasilia, i.e. é mais fácil criticar do que consertar e isso não tem graça para mim.

Mas eu acabo de levar os guris no colégio e ouvia o Ricardo Boechat, craque da Bandnews, esculhambar o governo e ele inspirou este post. Os motivos:

  1. Governo promete mundos e fundos para apoiar ‘n’ setores com dificuldades de liquidez e/ou com consumo cadente. Como: via financiamentos da Caixa, do BB, BNDES e compulsórios do Banco Central (caso de bancos médios e pequenos). Tudo certo.
  2. Só que o custo dessa ajuda é altíssimo, a começar pela taxa básica de juros (13,75%), a SELIC, que é a taxa de juros real mais alta do mundo. Fora o spread, que no caso dos bancos públicos até que são razoáveis (apenas para o padrão local!). Só que os demais bancos estão cobrando muito mais, pois a liquidez está escassa no sistema como um todo. Tudo errado.

O ativismo governamental está centrando fogo nos seguintes focos da crise:

  1. Limitar a falta de liquidez de bancos pequenos e médios (na marra)
  2. Reativar setores (“cadeias produtivas”) importantes para o emprego
  3. Incentivar o consumo da população – em especial da baixa renda

Só que, como de hábito, Fazenda e Banco Central atuam como inimigos na trincheira. Parece que o BC realmente não acredita que haverá uma forte retração econômica no país, ao mesmo tempo que, por outro lado, teme que há um processo inflacionário recalcitrante a ser atacado com força.

Se pensarmos que a recessão que galopa rapidamente é um incêndio, a Fazenda se comporta como o bombeiro zeloso, mas o BC brinca com o isqueiro no meio do incêndio. Já o BC acha que incêndio mesmo é a inflação. Então, dá-lhe jato d’água e pó químico, enquanto a Fazenda prepara-se para jogar mais lenha no fogaréu.

Existe um processo inflacionário, não há dúvida, pois a desvalorização do real foi brutal e certamente haverá repasse do custo inflado dos produtos importados. E não há evidência alguma que o câmbio voltará a um patamar próximo de R$ 2,00. Em 2009, será de R$ 2,20 pra cima, na minha opinião.

Agora… o governo liberar a torneira de liquidez de um lado e o mesmo governo cobrar caríssimo por essa mesma água parece-me um equívoco. Parece-me que o “chefe” dos senhores Mantega e Meirelles deveria chamá-los para uma “conversinha”.

Reparem que 6 meses – sim, é só isso – atrás, o fantasma global era a inflação em função dos altos preços das commodities. Naquele período, nosso BC foi exemplar ao iniciar um vigoroso processo de alta de juros, enquanto os demais bancos centrais titubeavam. O nosso Henrique Meirelles foi festejado em todos os fóruns internacionais. Quando o vento mudou de lado – e não há dúvida de que mudou lá e aqui – os outros BCs foram vigorosos em dobro, derretendo suas taxas de juros, mas aí o nosso – que historicamente tem viés altista – resolveu ser triplamente cauteloso.

O momento pede uma outra abordagem.

Saudações e um bom dia a todos.

Fernando

PS: hoje tem Fernando Blanco no Conta Corrente, do canal Globonews, às 20:30. Não percam! Promessa de grandes revelações!! 🙂