Caros, o crédito veio com força na mídia impressa hoje. Os diários Estadão, Folha de SP e Valor Econômico trouxeram vários artigos sobre o tema, todos na mesma direção: mais crédito e juros mais baixos no Brasil.

Destaque para o Banco do Brasil, que anunciou a liberação de mais de R$ 13 bilhões em crédito, para 10 milhões de clientes. A reportagem da Folha diz que este crédito foi adicionado automaticamente às linhas já existentes destes clientes.

Isto significa que são linhas para pessoas físicas e pequenas empresas, pois as grandes têm seus limites definidos caso-a-caso em comitês de crédito. Também me é claro que este aumento de limites não se deu de forma homogênea para todos os 10 milhões de atingidos. Tem gente que ganhou mais linha e outros menos, sempre dependendo do perfil de risco de cada cliente, com base no chamado credit/behavior score.

De qualquer forma, esta pode ser uma ótima oportunidade para cidadãos e empresas que já têm conta no BB, assim como dívidas em outras bancos e financeiras. Explico: como tais clientes devem estar pagando juros mais altos em outros bancos, deveriam negociar crédito novo no BB e repagar tais dívidas.

Outros bancos também vêm anunciando melhores condições para empréstimos imobiliários e para financiamento de automóveis – com prazos bem dilatados. No entanto, o processo de concessão está mais rígido! Tais créditos não serão dados para qualquer um – ver post anterior.

E mais, eu não acredito que este movimento seja apenas um “soluço”, ou seja, temporário, como alguém declarou no Estadão. Acho que a oferta de crédito começa a se ajustar num novo patamar, que é mais baixo do que nos dias da farra pré-crise e acima do quase contingenciamento pós-15 de setembro.

Mas e os bancos, ficaram bonzinhos de repente? Não…apenas detectaram que o risco de crédito não ficou tão ruim como esperavam, limparam as carteiras de maus neoendividados e, finalmente, detectaram que estavam lucrando menos que o desejado.

Mercado de bonds internacionais – outra boa notícia vem do mercado de capitais internacional, com o aumento do apetite de risco dos investidores para títulos (bonds) emitidos por empresas brasileiras de grande porte e solidez comprovada. Apesar dos juros ainda altos (para o padrão internacional, destaque-se), os volumes são grandes (até USD 100 mi) e os prazos longos (3 a 5 anos neste momento), o que é quase impossível de se obter no Brasil de hoje.

Com a reabertura deste mercado, as grandes empresas brasileiras – que estão no meio de projetos de expansão – poderão captar recursos no exterior, deixando de competir com as empresas de menor porte, por recursos escassos.

Concluindo, caminhamos consistentemente para um aumento da oferta de crédito bancário no Brasil, forçando com isso a queda dos juros/spreads. Ainda está caro. Mas,  quanto menos crédito você demonstrar precisar, mais barato pagará por ele. Não se esqueça desta regra de ouro!

Abraços, F.

Amigos,

Ninguém aguenta mais falar de crise, isto é claro. Porém, ela existe e só sobreviverá quem administrar corretamente esta travessia. Isto também é claro. Há um dilema, porém: como é que gente como eu pode comunicar sua visão sobre a tinhosa, sem parecer o Zé do Caixão ou como o Macaco Simão?…

Tem muita gente que prefere se comunicar através de bordões do tipo: “O pior já passou”, “Crise é igual a oportunidade”, “Estaremos vivos ao final da crise e a vida continua”, “Sejamos otimistas” e outras pérolas. O tema não é novo aqui no blog, mas me incomoda tanto que tornou-se recorrente. Mil perdões pela falta de originalidade.

ArcelorMittal no Valor Econômico – a maior siderúrgica do mundo é uma potencia no Brasil também e, na edição de hoje do jornal, a repórter Vera Saavedra Durão entrevista o executivo do grupo José Francisco Viveiros.

A empresa vem implementando, há anos, uma bem sucedida estratégia de crescimento baseada em aquisições. Analisem, portanto, esta declaração do J.Francisco, assim como os meus negritos:

Nossa estratégia não mudou [por causa da crise]. Apenas a velocidade de aquisição e investimento desses ativos será menor [por causa da crise]

Acho que é uma frase perfeita, tipo livro-texto. Não é otimista (porque não diz que “apesar da crise vamos investir normalmente“); não é pessimista (porque não diz que “abandonamos nossos planos!”). Ela é sim realista, pois mantém a estratégia de longo-prazo, mas faz os ajustes no curto-prazo.

Minha visão – esta crise vai atrasar o mundo em uns 3 anos (ou mais) e empobrecerá quase todo mundo. Então, não faz sentido algum a empresa (qualquer empresa ou cidadão) se endividar (se é que vai conseguir fazê-lo, nestes dias de crédito curto) para fabricar algo que não terá quem compre nos volumes oferecidos. O que fazer? Esperar um pouco, analisar o novo contexto do seu mercado, investir menos talvez, etc. Não é ciência espacial, não, é bom senso só.

Mas tem gente, os tais “otimistas de quermesse” que acham que tá tudo certo e vamos que vamos! Que ódio! São manipuladores da fé pública!

Crédito – se você está negociando uma linha de crédito (nova ou rolagem) precisa demonstrar bom-senso para o seu gerente. Banco não gosta de gente “otimista”, nem de “pessimista”. Banco gosta de gente realista!Negociar crédito demonstrando que está tudo bem (parecendo que acabou de sair do curso de auto-ajuda) é certeza de negativa. Da mesma forma, negociar crédito com fisionomia e motivação de quem precisa de Prozac na veia, não ajuda também.

Realismo, amigos, isto é mais que suficiente!

Abraços, Fernando

PS: usurpei o termo “de quermesse” do Alex Schwartsman, brilhante economista (pra lá de ortodoxo!), que costuma chamar certos economistas de “keynesianos de quermesse”, pois, segundo ele, comentam economia sem conteúdo. E os meus “otimistas de quermesse” não têm noção do que estão falando…

Caros,

O nosso BC não cansa de surpreender o país! Lá estava eu em Paris, cercado de gente importante a elogiar o Brasil, dizendo que éramos os mais preparados para enfrentar a crise… e olhe que a gringolândia se baseava no fato de que aqui “nem era necessário baixar os juros, como no resto do mundo”.

E de repente, não mais que de repente, vem o choque: COPOM derruba os juros em 1%. Assim, à vista, sem prestações! Até me engasguei com o croissant!!

Lembram, quando todos clamavam por uma redução da SELIC por conta da crise, o BC a aumentou; agora que todos achavam que a taxa cairia o,5% eles socaram 1%! Acho que existe uma banda de pagode chamada Só pra Contrariar, não é?! Taí, pode ser o apelido do COPOM… 🙂

O lance agora é apreciar como isso irá atingir os juros na ponta (aquele que pagamos). Os bancos – a maioria, pelo menos – já anunciou mini-reduções na taxa mensal (que compõe 1% de redução na taxa anual). Esta redução se dá na “tabela cheia” que o gerente enxerga na tela dele. A taxa que nós pagamos pode e deve ser mais baixa do que esta. Mas às vezes é até mais alta… se você marcar bobeira, prepare-se para pagar o que o gerente quiser! Atenção: ele não faz isso por ser sádico ou malvado, mas porque tem que atingir metas de resultado e isso é o problema dele; o seu é brigar por juros menores.

A história mostra que os juros (i.e. os spreads) cairão mais lentamente do que a SELIC. A tendência é que este processo seja ainda mais lento agora, por conta da crise de confiança que toma conta do nosso e de todos os sistemas financeiros do mundo.

O Valor Econômico deste final de semana, em matéria de Fernando Travaglini, traz a manchete “Incerteza mantém spread elevado”. Vamor reler e dar mais precisão a esta manchete: “Incerteza quanto à capacidade de repagamento das empresas aumenta o conservadorismo dos comitês de crédito e, portanto, reduz a oferta de crédito, sendo que este fato reduz fortemente o poder de barganha dos tomadores de crédito, permitindo que os spreads se mantenham elevados”. É só isso… ou melhor, tudo isso.

Nesta matéria, o economista-chefe da FEBRABAN, Rubens Sardenberg (irmão mais novo do famoso jornalista da CBN e da Globo Carlos Alberto) saiu-se bem ao dizer – de forma direta – que o cenário é incerto e que a queda da SELIC não significa que os spreads cairão. Gostei! Parabéns! Eu já disse isso aqui: os mercados financeiro e  segurador (em geral) tem que aprender a dar más notícias de forma transparente. Acho que é a mão do Fabio Barbosa na FEBRABAN, mudando o estilo da casa.

BB, CEF, BNDES, BNB e BASA – no embalo do COPOM e na necessidade de dar uma resposta à sociedade civil, o Presidente Lula reuniu seu alto comando econômico e os Presidentes dos bancos federais, para dar-lhes uma ordem: os bancos estatais tem que sair na frente na guerra pela redução dos juros e do spread bancário.

Já abordei este tema aqui. Juros não caem por decreto, nem no grito. Os executivos e gerentes desses bancos tem metas a cumprir – e bônus a receber pelo seu devido cumprimento. Outro ponto: depois, se esses bancos lucrarem menos que os privados, vão cair de pau neles dizendo que são mal administrados, que há corrupção, etc. Será que vão lembrar que foi o Big Boss que mandou?!

Anotem aí: os juros desses bancos só cairão pra valer se houver algum tipo de ordenamento jurídico adequado, tipo publicação no Diário Oficial, etc. Do contrário, farão uma redução cosmética apenas, só para agradar Lula.

Erro – voltando à reportagem do Valor, o jornalista foi na conversa de acadêmicos que insistem em “fatiar” o spread bancário, como se houvesse uma fórmula mágica para determiná-lo. A reportagem explica que o spread bancário é composto da seguinte forma:

  • 37,4% Inadimplência
  • 26,9% Resíduo liquído
  • 13,5% Custo administrativo
  • 10,5% Impostos diretos
  • 8,1% Tributos e taxas
  • 3,6% Custo do compulsório

A soma, se Deus quiser, dá 100%. Bonito, não?! Pois é, tão bonito quanto errado. Cansei de precificiar empréstimos – i.e. embutir spreads – pra cima e pra baixo única e exclusivamente por conta do que o mercado estava precificando. Ninguém fica fazendo conta “ah, vou cobrar mais 0,075% a.a. porque a inadimplência subiu 0,0009% este mês e precisamos compensar…”. Essas análises são feitas de trás pra frente e perdem a validade 1 segundo após serem publicados porque as condições de mercado mudam.

Ou alguém acha que quando a inadimplência cai, os bancos reduzem angelicalmente as taxas que cobram? E quando o BC liberou o compulsório, alguém baixou a taxa? Ou quando Itaú e Unibanco cortarem zilhões de reais em custos, após a fusão, irão reduzir o spread que cobram? É mercado! Esta análise serve para dar uma noção num determinado momento e olhe lá.

Enfim, boa sorte para todos nós – do meu lado, as empresa sobre as quais corro risco de crédito, precisam de mais linhas de crédito e mais baratas, do contrário elas não pagarão os meus clientes e eu tenho que indenizá-los. Dureza…

Abraços e uma ótima semana!

Fernando

Parece que agora já há consenso: o Brasil vai desacelerar mesmo. A dúvida é: quanto? Em que prazo?

O que ninguém ainda fala pra valer é que esta desaceleração irá machucar muito endividado de última hora.

Leiam abaixo a Miriam Leitão, que tem uma visão mais próxima da minha. E sugiro que ouçam o último áudio do blog dela, que fala sobre o tema.

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=fim_dos_descolados&cod_Post=120455&a=73

E como contra-ponto, leiam o que saiu no Valor Econômico de hoje, onde economistas acham que os investimentos externos, que na visão deles continuarão vindo para o Brasil, compensarão outros desarranjos. Tomara. Mas eu duvido…

http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/primeirocaderno/Desaceleracao+da+economia+sera+lenta+e+pouco+intensa,,,62,5099437.html

Abraços, F.

Segue abaixo reportagem do Valor Econômico de hoje, editada para manter o foco. Há vários motivos para o maior varejista do país aumentar o prazo de vendas. Tentemos ler e concluir o que não está escrito:

  1. MUITO PROVÁVEL: Mesmo os bons clientes da casa (aqueles que ao pagar a 5a parcela da geladeira são seduzidos a comprar, sempre a prazo, e.g., um dormitório) estão com o orçamento esgotado e o salário não mais acomoda novas parcelas de crediário.
  2. MUITO PROVÁVEL: Mesmo sem fazer novas compras, muitos clientes estão com o poder de compra reduzido, por conta da inflação.
  3. POUCO PROVÁVEL: Passaram a atingir um novo nicho de clientes, com menor poder aquisitivo, que precisa de mais prazo para que a parcela do crediário se acomode no orçamento mensal.
  4. SERÁ?: o aumento dos juros (SELIC) foi baixo demais e os grandes varejistas conseguem boas taxas de juros dos grandes bancos. Será que repassaram os juros com um spread muito alto?

De qualquer forma – e mesmo respeitando a inegável competência da família Klein na gestão do risco de crédito no varejo -, definitivamente não me parece a hora de expandir esta carteira. Afinal, alongar prazo é extender risco.

Pelo contrário, o movimento que detectamos aqui na Coface (www.coface.com.br) é uma contínua e crescente aversão ao risco de crédito comercial. Daí a nossa carteira de seguros ter duplicado nos últimos 12 meses!!

Abraços, F.

Casas Bahia estica prazo de pagamento

Claudia Facchini, de São Paulo
14/08/2008

Com a alta da inflação e dos juros, as varejistas colocaram em prática o “plano b” e conseguiram fazer com que os consumidores não saíssem da loja sem comprar. A Casas Bahia, maior rede de eletrônicos e móveis do país, ampliou o número de prestações para não precisar aumentar o valor das parcelas, o que suavizou o impacto de juros e preços mais salgados. Em vez de oito vezes, a varejista passou neste ano a dividir, em média, os pagamentos em dez parcelas fixas.

1. No link abaixo, a Associação Comercial de S.Paulo (ACSP) divulga que o Índice de Confiança do Consumidor paulista manter-se-á estável, conforme os dados de julho – estável e alto, nos seus 138 pontos. Estamos na contra-mão do mundo, ou “descolamente ao contrário” como estão dizendo por aí.

http://www.estadao.com.br/economia/not_eco223353,0.htm

2. A matéria abaixo saiu no Valor Econômico de hoje (4af!) e está aqui editada por questão de espaço (e o link do valoronline tem cadeado para assinantes). Olha, como eu discordo das afirmações abaixo … se até a FEBRABAN, cujos bancos associados controlam as financeiras associadas da ACREFI, já disse (na figura do seu presidente F.Barbosa) que espera uma desaceleração no crédito…

Crédito ao consumo não perderá força, diz Acrefi

Fernando Travaglini, De São Paulo
13/08/2008

O mercado de crédito ao consumo não deve sofrer uma desaceleração por conta da política monetária mais restritiva do Banco Central. A opinião é do novo presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Adalberto Savioli.

 

Ele acredita que o crédito tem um papel muito importante no processo de desenvolvimento econômico e a continuidade desse ciclo de crescimento dos empréstimos deve continuar. “O BC dá sinais para segurar a economia e está correto. Mas também não quer desaquecer ou interromper o crescimento econômico.” O estoque de crédito para pessoas físicas encerrou o mês de junho em R$ 263,5 bilhões, com alta de 21,2% em doze meses, segundo dados do BC.

A jornalista Cristiane Perini Lucchesi, responsável por Reportagens Especiais, no Valor Econômico, vem fazendo excelentes trabalhos e abaixo segue o link do mais recente.

Alguns comentários da minha parte:

  1. Reparem bem o quadro (fonte: Bloomberg) que compara o rendimento (*) que cada empréstimo gera para o investidor/emprestador. Destaco duas empresas de perfil muito similar – e com empréstimos de prazos de vencimentos similares -, mas que tem seus créditos precificados de forma díspare, e.g. Bertin, que paga Libor + 170 bps (= 1,7% acima da Libor) a.a., versus Marfrig, que paga Libor + 325 bps (= 3,25% acima da Libor).
  2. Como estas empresas competem no mercado de carne, a Bertin tende a está levando uma tremenda vantagem comparativa em termos de custo de captação de recursos para financiamento do seu capital de giro.
  3. A jornalista bem salienta que a maioria das empresas não gostam de ter seus créditos negociados no mercado secundário. Isto ocorre porque esta prática torna visível/transparente a taxa de juros de mercado que estas empresas deveriam pagar por novos empréstimos. No caso, como estamos num momento de crise em muitos bancos e estes ‘fritam’ seus ativos, os preços (p.u.) caem no mercado secundário, i.e. e o rendimento (ou yield) sobe, passando a impressão de que a empresa está pagando juros mais altos do que deveria. As vezes a percepção torna-se realidade, o que não é bom para os tomadores.
  4. (*) Usá-se a palavra “rendimento” porque tais taxas (Libor + alguma coisa) não representam o custo de fato do empréstimo originalmente captado pela empresa, mas sim a taxa que o novo credor irá receber por ter adquirido tal empréstimo. A taxa de captação do empréstimo difere da taxa do Rendimento do empréstimo, porque estes são normalmente negociados com preços diferentes do valor de face (i.e. com desconto ou prêmio). E isto dependerá das taxas de juros de mercado e da percepção de risco que o mercado passou a ter do país e/ou da empresa.

http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/financas/54/Crise+impulsiona+venda+de+credito,,,54,5085000.html

Abraços e parabéns para a Cristiane!

Fernando